Política

'Ministro da saúde não é despachante de decisão de Anvisa', diz Queiroga

"A história vai julgar, vai me julgar. Eu trabalho todos os dias para que eu tenha um bom julgamento da história", disse. "Eu faço o melhor que eu posso."

Em meio ao atrito entre o Palácio do Planalto e a Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa) sobre a imunização das crianças de 5 a 11 anos, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, afirmou neste sábado, 15, em João Pessoa, que não é "despachante" do órgão regulador. A declaração ocorreu após um embate travado nos últimos dias entre o presidente Jair Bolsonaro, crítico da vacinação infantil contra a covid-19, e o diretor-presidente da Anvisa, Antonio Barra Torres.

O ministro da Saúde tem sido criticado pela demora no início da vacinação das crianças. A Anvisa autorizou a aplicação das doses pediátricas em 16 de dezembro. O Ministério liberou a imunização em 5 de janeiro, e o primeiro lote com vacinas da Pfizer chegou ao País na última quinta-feira, 13.

"Quantos medicamentos, dispositivos ou produtos têm registro na Anvisa e não fazem parte das políticas públicas? O ministro da Saúde não é um despachante de decisão de Anvisa nem de agência nenhuma", afirmou Queiroga. "O Ministério da Saúde é quem conduz a política pública e o ministro da Saúde é a principal autoridade do sistema de saúde no Brasil."

Queiroga esteve na capital paraibana hoje para um ato de imunização e testagem contra a covid no Hospital Universitário Lauro Wanderley. O ministro afirmou, durante entrevista, que a história julgará seu trabalho à frente da pasta.

"A história vai julgar, vai me julgar. Eu trabalho todos os dias para que eu tenha um bom julgamento da história", disse. "Eu faço o melhor que eu posso."

Reação

Durante um evento no Palácio do Planalto na quarta-feira, 12, Bolsonaro tentou minimizar o atrito com a agência. Depois de ter rebatido uma carta de Barra Torres dirigida a ele, o presidente disse que não "brigou" com o contra-almirante, mas apenas o questionou sobre a recomendação para que crianças de 5 a 11 anos fossem vacinadas.


"Aqui não é um quartel, mas devemos ao máximo zelar pela hierarquia e disciplina, senão não funciona. Não briguei com o presidente da Anvisa, apenas questionei sobre um assunto que tinha que ser questionado. Somente eu e ele. De repente está na imprensa", afirmou o chefe do Executivo.


Na segunda-feira, 10, dois dias após ser cobrado publicamente para que se retratasse dos ataques à Anvisa, Bolsonaro havia dito ter ficado surpreso com o que chamou de "carta agressiva" de Barra Torres. O presidente afirmou não ter acusado o almirante de corrupção e mudou o tom das insinuações, mas voltou a levantar dúvidas sobre as "intenções" da agência ao recomendar a vacinação infantil.


"Me surpreendi com a carta dele. Carta agressiva, não tinha motivo para aquilo. Eu falei: 'O que está por trás do que a Anvisa vem fazendo?' Ninguém acusou ninguém de corrupção. Por enquanto, não tenho o que fazer no tocante a isso aí", disse Bolsonaro, em entrevista à Rádio Jovem Pan.

No sábado passado, 8, Barra Torres havia cobrado uma retratação pública de Bolsonaro, dois dias após o presidente questionar os "interesses" de integrantes da Anvisa, ao reclamar do aval à vacinação infantil. "Se o senhor não possui tais informações ou indícios, exerça a grandeza que o seu cargo demanda e, pelo Deus que o senhor tanto cita, se retrate", escreveu o militar da reserva da Marinha, ao desafiar o presidente a apontar indícios de corrupção contra ele.

Vacinação infantil

Depois de tentar dificultar a vacinação de crianças, o Ministério da Saúde autorizou em 5 de janeiro a aplicação do imunizante contra a covid-19 na faixa etária de 5 a 11 anos, sem exigência de prescrição médica, como havia sido considerado por Queiroga. O intervalo da aplicação das duas doses pediátricas será de oito semanas.

Na sexta-feira, 14, no dia em que o Governo de São Paulo realizou cerimônia de início da vacinação infantil contra covid-19 no Estado, Queiroga usou as redes sociais para acusar o governador paulista, João Doria (PSDB), escolhido como pré-candidato do PSDB à Presidência, de fazer "palanque" com os imunizantes. Quase um ano depois de vacinar a primeira pessoa contra o coronavírus no País, antes do Governo Federal, o tucano repetiu o jogo político na imunização de crianças.

"O político @jdoriajr subestima a população. Está com as vacinas do @govbr e do povo brasileiro em mãos fazendo palanque. Acha que isso vai tirá-lo dos 3%", escreveu Queiroga no Twitter, numa referência ao porcentual de intenções de voto de Doria em algumas pesquisas eleitorais. "Desista! Seu marketing não vai mudar a face da sua gestão. Os paulistas merecem alguém melhor", acrescentou o ministro, que também é cotado para disputar cargo público nas eleições deste ano pela Paraíba.

O ministro ressaltou ainda que as vacinas para as crianças chegaram ao Brasil "em tempo recorde". "Logo após autorização da agência reguladora a farmacêutica começou a produzir as doses e garantiu que esse era o melhor cronograma possível. O @minsaude garante que todos os pais que quiserem vacinar terão vacinas!", disse Queiroga.

Em cerimônia no Hospital das Clínicas ontem, 14, Doria imunizou a primeira criança entre 5 e 11 anos contra a covid-19 no País: o menino indígena Davi, de 8 anos, da etnia Xavante. A vacina pediátrica usada foi a da Pfizer, cujo primeiro lote chegou ao País naquela madrugada.

O local do evento foi o mesmo onde a enfermeira Mônica Calazans recebeu, em 17 de janeiro de 2021, a primeira dose de vacina contra o coronavírus no Brasil. Ela foi imunizada com a Coronavac, produzida pelo Instituto Butantan, do Governo de São Paulo, em parceria com a farmacêutica chinesa Sinovac.

Durante a cerimônia, Doria aproveitou para cobrar da Anvisa a liberação do uso pediátrico da Coronavac. O governador também elogiou o órgão, que tem sido atacado por Bolsonaro. Para o tucano, a Anvisa realiza um trabalho "extraordinário" em defesa da ciência, da medicina e da vida.


fonte: Estadão Conteudo